Lambidas na Utopia
Sexta-feira, Dezembro 30, 2011
Quinta-feira, Dezembro 29, 2011
É prerrogativa das representações superar, tanto em estética quanto significado, o seu correspondente no universo tangível*.
O concreto não possui nenhuma vantagem sobre o onírico (a não ser a própria natureza palpável).
Tocamos o mundo exterior e só.
O que realmente nos toca, o que permite que derrubemos as nossas barreiras e nos deixemos tocar, é um universo criado, único, individual e fictício (e por isso mesmo muito mais verdadeiro).
Não vivemos mais em sociedade.
(chego a me perguntar se tal coisa sequer existe)
Somos grandes ilhas, povoadas por fauna e flora exuberantes e toda a sorte de mistérios sem, no entanto, abrigar uma única consciência humana viva além da nossa própria.
Só aconteceu de estarmos num mesmo arquipélago.
Assim, gostar ou odiar uma música, um livro, uma pessoa, uma época, uma situação, ou o que quer que seja, consiste apenas em alternar entre estados de amor próprio e auto-desprezo.
Afinal, você está sozinho num mar de ilhas desabitadas, não há ninguém pra amar além de si mesmo.
.
.
Contudo, o onírico continua a ser onírico e o concreto continua a ser concreto.
O concreto não possui nenhuma vantagem sobre o onírico (a não ser a própria natureza palpável).
Tocamos o mundo exterior e só.
O que realmente nos toca, o que permite que derrubemos as nossas barreiras e nos deixemos tocar, é um universo criado, único, individual e fictício (e por isso mesmo muito mais verdadeiro).
Não vivemos mais em sociedade.
(chego a me perguntar se tal coisa sequer existe)
Somos grandes ilhas, povoadas por fauna e flora exuberantes e toda a sorte de mistérios sem, no entanto, abrigar uma única consciência humana viva além da nossa própria.
Só aconteceu de estarmos num mesmo arquipélago.
Assim, gostar ou odiar uma música, um livro, uma pessoa, uma época, uma situação, ou o que quer que seja, consiste apenas em alternar entre estados de amor próprio e auto-desprezo.
Afinal, você está sozinho num mar de ilhas desabitadas, não há ninguém pra amar além de si mesmo.
.
.
Contudo, o onírico continua a ser onírico e o concreto continua a ser concreto.
Sexta-feira, Dezembro 23, 2011
Domingo, Dezembro 18, 2011
Besta mecânica de um apocalipse sintético
As minhas veias estão abertas: nada escorre.
Nada mais se agita em mim.
Num nível quântico, minhas moléculas não se aproximam mais.
Abandono a substância visguenta que liga o onírico à materialidade.
Arranquei todas as cortinas: estou nua.
Não tenho mais nada a esconder.
Eu espero, e isso é tudo.
A minha apatia é a apatia do mundo.
Não sou espelho, sou vidro polido.
Sou cacos.
Sou poeira.
O meu corpo é fragmentado em milhares de partículas dispersas: sou fumaça.
Anseio pela dissolução, ser uma com o ar, descosturar os meus fios do tecido do universo.
No entanto, a minha carne continua a lançar a minha consciência no lodo.
Eu quis ser etérea e tudo o que consegui foi ser fraca.
O meu desejo de me desfazer converteu-se em um tipo de intangibilidade medíocre.
Em vez da mente que nutre-se de si mesmo; a não-solidez barata.
O que eu achei que era o meu nirvana mostrou-se tão somente solidão.
Conjuro em mim a angústia do mundo: sou veículo.
O mundo é o espírito de um javali selvagem e meu corpo é a sua casa.
Não falo, meramente transmito.
A minha doença é a doença da existência.
A minha doença é a existência.
Caminho descalça sobre o vazio como se sobre rocha derretida, meus pés estão cansados.
O motor que se move por conta própria, mas sem saber por que, pra que, pra quem, o que, como.
Moto-contínuo.
Nas minhas costas repousam séculos de repetição, de eterno retorno.
Eu sou a tartaruga que carrega o mundo nas costas.
A desgraçada que carrega o feto abortado de deus nas entranhas.
Sem passado, sem história, sem memória e sem conceito.
Finalmente.
E meu nome não é Marilia, não é palavra, não é som.
Meu nome é Ninguém.
.
.
Isso era tudo o que eu tinha pra falar.
Ao menos por enquanto.
Domingo, Novembro 13, 2011
Uma tribo, é isso que eu sou.
"Voz 1
Uma tribo
É isso que eu sou
Esse “eu” estranho
Que nunca a civilização
controlou
Eu vou limpar minha alma
Para me renovar
Para cair
E para me torturar
Com uma dor de dentes insuportável
Com gengivas inflamadas
E uma terrível câimbra nos maxilares
Que me absorve totalmente
E me faz romper com tudo
Até o ponto de não
Tocar mais a vida
Até o ponto em que o desaparecimento se revela
Eu vou limpar a minha alma
E não vou parar
Antes de encontrar a paz
Antes de parar de me perder nos meus pensamentos
Antes de me libertar da dor de ser livre
Essa dor ardente
Sentir os pensamentos que se deslocam
Estar sempre a caminho
E jamais parar
Em mim
Eu não vou parar de
Limpar minha alma
Camada após camada
Até que reste apenas
A calcificação esférica
De um único pensamento
Eu sou um espírito queixoso
Que não sabe como agir
E que toma sempre o caminho incerto
Da mortificação delirante que é sua vida
Que gravita apenas nos despenhadeiros escarpados
Para examinar o estrangulamento do seu ser
Pssss, pssst, pssst, pssss, pssst,
Pssss
Eu sei
Eu perdi a minha língua
Mas isso não dá a vocês
o direito de continuar
Eu desconfio
Dessas merdas peremptórias
Que etiquetam
As criações e o pensamento
Pssss, pssst, pssst, pssss, pssst,
Pssss
Eu desconfio dos cantores de ópera
Esses funcionários gordos e
bem pagos
que escarram sons em sua alma com
a precisão de flechas castradas
Pssss, pssst, pssst, pssss, pssst,
Pssss
Eu desconfio dos compositores
Essas putas de opereta que vomitam notas
E copiam uns dos outros as
Melodias afetadas
A golpes de mouse no computador
Pssss, pssst, pssst, pssss, pssst,
Pssss
Eu desconfio dos atores
Esses travestis maquiados demais
Que só sabem falar quando
Alguém lhes escreve um texto
E parecem papagaios mecânicos
Pssss, pssst, pssst, pssss, pssst,
Pssss
Eu desconfio dos escritores
Esses escrevinhadores plagiários
Que deixam seu espírito traficado girar
Ao sabor dos ventos, como cata-ventos
Pssss, pssst, pssst, pssss, pssst,
Pssss
Lá onde outros propõem criações
Eu só quero mostrar
Meu espírito implicante
Eu não quero mais lamentar isso
Pois eu perdi a minha língua
Pssss, pssst, pssst, pssss, pssst,
Pssss
O que estou fazendo?
Talvez eu tenha apenas uma tarefa!
Eu mordo a mão de Deus
Eu não solto os dentes
Continuo a morder até ser lavado
Pelos jatos de sangue de Deus
Eu não devo me purificar
Porque ele me cega
Estou destinado a ser um vidente
Que não vê
Eu erro
Eu flutuo
Voz 2
Há muito tempo não vejo mais a terra
Mas meus pés estão cheios de bolhas
Voz 1
Eu não vou parar
Camada após camada
Eu vou limpar minha alma
até que reste apenas
a calcificação esférica
de um único pensamento
Eu sou o velho cão
selvagem
Que vê as cores do arco-íris
E que geme e chora sob a lua e
Sob o sol
Pssss, pssst, pssst, pssss, pssst,
Pssss
Um esqueleto destroçado
Envolvido por músculos finos e ardentes
Raquíticos e crispados
Como se fosse feito de vidro
E frágil
(...)"
.
.
(Jan Fabre, “Une tribu, voilà ce que je suis” (excerto), tradução de Sílvia
Fernandes.)
Uma tribo
É isso que eu sou
Esse “eu” estranho
Que nunca a civilização
controlou
Eu vou limpar minha alma
Para me renovar
Para cair
E para me torturar
Com uma dor de dentes insuportável
Com gengivas inflamadas
E uma terrível câimbra nos maxilares
Que me absorve totalmente
E me faz romper com tudo
Até o ponto de não
Tocar mais a vida
Até o ponto em que o desaparecimento se revela
Eu vou limpar a minha alma
E não vou parar
Antes de encontrar a paz
Antes de parar de me perder nos meus pensamentos
Antes de me libertar da dor de ser livre
Essa dor ardente
Sentir os pensamentos que se deslocam
Estar sempre a caminho
E jamais parar
Em mim
Eu não vou parar de
Limpar minha alma
Camada após camada
Até que reste apenas
A calcificação esférica
De um único pensamento
Eu sou um espírito queixoso
Que não sabe como agir
E que toma sempre o caminho incerto
Da mortificação delirante que é sua vida
Que gravita apenas nos despenhadeiros escarpados
Para examinar o estrangulamento do seu ser
Pssss, pssst, pssst, pssss, pssst,
Pssss
Eu sei
Eu perdi a minha língua
Mas isso não dá a vocês
o direito de continuar
Eu desconfio
Dessas merdas peremptórias
Que etiquetam
As criações e o pensamento
Pssss, pssst, pssst, pssss, pssst,
Pssss
Eu desconfio dos cantores de ópera
Esses funcionários gordos e
bem pagos
que escarram sons em sua alma com
a precisão de flechas castradas
Pssss, pssst, pssst, pssss, pssst,
Pssss
Eu desconfio dos compositores
Essas putas de opereta que vomitam notas
E copiam uns dos outros as
Melodias afetadas
A golpes de mouse no computador
Pssss, pssst, pssst, pssss, pssst,
Pssss
Eu desconfio dos atores
Esses travestis maquiados demais
Que só sabem falar quando
Alguém lhes escreve um texto
E parecem papagaios mecânicos
Pssss, pssst, pssst, pssss, pssst,
Pssss
Eu desconfio dos escritores
Esses escrevinhadores plagiários
Que deixam seu espírito traficado girar
Ao sabor dos ventos, como cata-ventos
Pssss, pssst, pssst, pssss, pssst,
Pssss
Lá onde outros propõem criações
Eu só quero mostrar
Meu espírito implicante
Eu não quero mais lamentar isso
Pois eu perdi a minha língua
Pssss, pssst, pssst, pssss, pssst,
Pssss
O que estou fazendo?
Talvez eu tenha apenas uma tarefa!
Eu mordo a mão de Deus
Eu não solto os dentes
Continuo a morder até ser lavado
Pelos jatos de sangue de Deus
Eu não devo me purificar
Porque ele me cega
Estou destinado a ser um vidente
Que não vê
Eu erro
Eu flutuo
Voz 2
Há muito tempo não vejo mais a terra
Mas meus pés estão cheios de bolhas
Voz 1
Eu não vou parar
Camada após camada
Eu vou limpar minha alma
até que reste apenas
a calcificação esférica
de um único pensamento
Eu sou o velho cão
selvagem
Que vê as cores do arco-íris
E que geme e chora sob a lua e
Sob o sol
Pssss, pssst, pssst, pssss, pssst,
Pssss
Um esqueleto destroçado
Envolvido por músculos finos e ardentes
Raquíticos e crispados
Como se fosse feito de vidro
E frágil
(...)"
.
.
(Jan Fabre, “Une tribu, voilà ce que je suis” (excerto), tradução de Sílvia
Fernandes.)
Perpetuum mobile
Estático extático errático empático apático letárgico
.
.
E desde quando alguém pode dizer que a realidade se move?
E desde quando alguém pode dizer que não?
.
.
Palavras são tão-somente amontoados aleatórios de significados desconexos presos dentro de um mesmo casulo.
Dizer que a terra se move faz tanto sentido quando dizer que ela não vai a lugar algum.
Dizer que as coisas mudam é tão verdade quanto dizer que elas se repetem eternamente.
.
.
Dito isso, pouco me importa o que nos move.
Pouco me importa o que nos mantém presos.
Estamos andando. Correndo, desesperados.
E estamos parados. Inertes. Cansados.
O que importa é que jamais estaremos satisfeitos.
Sábado, Novembro 05, 2011
Terça-feira, Outubro 18, 2011
Sábado, Outubro 15, 2011
Segunda-feira, Setembro 26, 2011
O contrário também ocorre
Tudo se torna medíocre se olhado por tempo demais e insólito se olhado por tempo suficiente.
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