Lambidas na Utopia
Sábado, Abril 21, 2012
Domingo, Março 18, 2012
Quando nasci, os ventos não vieram soprar-me seu hálito doce e casto.
O mar não me exibiu de dentro de uma concha, como uma pérola mutante, única e bela.
Não vim ao mundo pelas mãos de deus nenhum, e nenhum anjo veio me dizer palavras estrangeiras, nenhum lirismo besta, nem uma mísera maldição que fosse.
Quando nasci uma única divindade, sozinha e desprezada, veio me fazer companhia.
Seu nome é Memória.
E não tinha conchas pra me guardar.
Tudo o que tinha era um pequeno caixãozinho, de sua própria autoria, muito feio, disforme e sujo.
O nome do caixão é Nostalgia.
E o hálito da Memória não é doce e casto.
Bom, talvez seja doce, de certa forma.
Cheia à mofo, roupas velhas esquecidas, trevos guardados em livros que não são abertos há séculos, garrafas vazias esquecidas no canto da sala e a quintais mal cuidados, os quais os fungos e pragas já tomaram como lar.
Agridoce é uma definição mais exata.
E Memória nunca me disse uma palavra sequer, porque sua voz é o silêncio.
Seus olhos não são puros e condescendentes, nem maliciosos e sedutores.
São empáticos.
Então Memória me olhou com um olhar vítreo, vazio e desistente, me olhou como se não houvesse mais nada para olhar.
Nasci longe do deslumbramento do mar, da luz e do sol tropical.
Nasci num quarto escuro, odiando a claridade desde sempre e amando tão somente a sombra fria de Memória, e sugando somente as tetas de Memória e de ninguém mais, as quais hei de sugar até o fim da minha vida.
Amo a cadeira de balanço de memória, amo a casa cheia de entulhos que ela tem, amo e desejo memória com todo o meu corpo, mente e espírito, só as lambidas de Memória me provocam desejo.
E quando cresci rejeitei todas as bocas cheias de palavras e presas que conheci, todas as linguas pueris e violentas que tentaram me afogar, cresci e amei somente a boca velha e desdentada de Memória, a sua língua bifurcada, as suas gengivas moles, sua dentadura guardada num copo d'água do lado da cama.
Senti nojo de todas as camas e pessoas onde e com quem deitei (mas nunca dormi, a ninguém além dela dou o direito de zelar o meu sono)
Odeio qualquer orgasmo que não seja o de Memória, odeio qualquer entorpecimento que não venha dela, exista nela e retorne a ela.
Meu unico leito será pra sempre o berço que Memória fez pra mim, que há de sustentar o peso dos meus pensamentos até o fim, e quando não houver mais pensamentos, há de sustentar o peso do meu corpo inerte.
Nenhum travesseiro me dá paz, a não ser o travesseiro de veludo do berço-caixão de Memória.
Odiei todos aqueles que não eram ela, odiei todos os corpos que não eram o dela, o corpo enrugado e enrijecido de memória, os ossos fracos dela, odiei e odeio ainda todas as presenças que não sejam a dela, odeio todos os cheiros que não sejam o cheiro de quarto de velho e doente dela, odeio todos os cabelos que não sejam os poucos fios ralos dela, odeio qualquer toque que não seja o dela, odeio qualquer voz que não seja a rouquidão dela, quaisquer flores que não sejam as dela, secas e sem água há muito tempo sobre uma mesinha em frente à janela, que fica sempre fechada.
Amo enfurecidamente a pele enrugada de memória, as sobras de gordura e mágoa caindo umas sobre as outras, amo as estrias dela, os cortes dela, amo a dor de Memória.
Odeio qualquer amor que não seja o de Memória.
Odeio os livros que não sejam dela.
Queimo-os sem um pingo de piedade, pois são só cinzas que se esqueceram de se desfazer.
E odeio profunda e bestialmente qualquer um que não tenha se vendido à ela.
Ou antes, que não tenha entregue sua alma numa caixa com um laço enfeitado, como um presente de despedida.
Morrerei frita no sol escaldante do meio dia antes de dar a outro o privilégio de me dar conforto, privilégio que é só dela e de mais ninguém.
Nenhum corpo há de encostar no meu novamente a não ser o dela.
E jamais outra sombra há de se projetar sobre mim a não ser a sombra aconchegante de Memória.
.
.
Assim sendo, tudo isso perde a razão de ser.
Essas são as últimas palavras que eu digo aqui.
Sexta-feira, Dezembro 30, 2011
Quinta-feira, Dezembro 29, 2011
É prerrogativa das representações superar, tanto em estética quanto significado, o seu correspondente no universo tangível*.
O concreto não possui nenhuma vantagem sobre o onírico (a não ser a própria natureza palpável).
Tocamos o mundo exterior e só.
O que realmente nos toca, o que permite que derrubemos as nossas barreiras e nos deixemos tocar, é um universo criado, único, individual e fictício (e por isso mesmo muito mais verdadeiro).
Não vivemos mais em sociedade.
(chego a me perguntar se tal coisa sequer existe)
Somos grandes ilhas, povoadas por fauna e flora exuberantes e toda a sorte de mistérios sem, no entanto, abrigar uma única consciência humana viva além da nossa própria.
Só aconteceu de estarmos num mesmo arquipélago.
Assim, gostar ou odiar uma música, um livro, uma pessoa, uma época, uma situação, ou o que quer que seja, consiste apenas em alternar entre estados de amor próprio e auto-desprezo.
Afinal, você está sozinho num mar de ilhas desabitadas, não há ninguém pra amar além de si mesmo.
.
.
Contudo, o onírico continua a ser onírico e o concreto continua a ser concreto.
O concreto não possui nenhuma vantagem sobre o onírico (a não ser a própria natureza palpável).
Tocamos o mundo exterior e só.
O que realmente nos toca, o que permite que derrubemos as nossas barreiras e nos deixemos tocar, é um universo criado, único, individual e fictício (e por isso mesmo muito mais verdadeiro).
Não vivemos mais em sociedade.
(chego a me perguntar se tal coisa sequer existe)
Somos grandes ilhas, povoadas por fauna e flora exuberantes e toda a sorte de mistérios sem, no entanto, abrigar uma única consciência humana viva além da nossa própria.
Só aconteceu de estarmos num mesmo arquipélago.
Assim, gostar ou odiar uma música, um livro, uma pessoa, uma época, uma situação, ou o que quer que seja, consiste apenas em alternar entre estados de amor próprio e auto-desprezo.
Afinal, você está sozinho num mar de ilhas desabitadas, não há ninguém pra amar além de si mesmo.
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Contudo, o onírico continua a ser onírico e o concreto continua a ser concreto.
Sexta-feira, Dezembro 23, 2011
Domingo, Dezembro 18, 2011
Besta mecânica de um apocalipse sintético
As minhas veias estão abertas: nada escorre.
Nada mais se agita em mim.
Num nível quântico, minhas moléculas não se aproximam mais.
Abandono a substância visguenta que liga o onírico à materialidade.
Arranquei todas as cortinas: estou nua.
Não tenho mais nada a esconder.
Eu espero, e isso é tudo.
A minha apatia é a apatia do mundo.
Não sou espelho, sou vidro polido.
Sou cacos.
Sou poeira.
O meu corpo é fragmentado em milhares de partículas dispersas: sou fumaça.
Anseio pela dissolução, ser uma com o ar, descosturar os meus fios do tecido do universo.
No entanto, a minha carne continua a lançar a minha consciência no lodo.
Eu quis ser etérea e tudo o que consegui foi ser fraca.
O meu desejo de me desfazer converteu-se em um tipo de intangibilidade medíocre.
Em vez da mente que nutre-se de si mesmo; a não-solidez barata.
O que eu achei que era o meu nirvana mostrou-se tão somente solidão.
Conjuro em mim a angústia do mundo: sou veículo.
O mundo é o espírito de um javali selvagem e meu corpo é a sua casa.
Não falo, meramente transmito.
A minha doença é a doença da existência.
A minha doença é a existência.
Caminho descalça sobre o vazio como se sobre rocha derretida, meus pés estão cansados.
O motor que se move por conta própria, mas sem saber por que, pra que, pra quem, o que, como.
Moto-contínuo.
Nas minhas costas repousam séculos de repetição, de eterno retorno.
Eu sou a tartaruga que carrega o mundo nas costas.
A desgraçada que carrega o feto abortado de deus nas entranhas.
Sem passado, sem história, sem memória e sem conceito.
Finalmente.
E meu nome não é Marilia, não é palavra, não é som.
Meu nome é Ninguém.
.
.
Isso era tudo o que eu tinha pra falar.
Ao menos por enquanto.
Domingo, Novembro 13, 2011
Uma tribo, é isso que eu sou.
"Voz 1
Uma tribo
É isso que eu sou
Esse “eu” estranho
Que nunca a civilização
controlou
Eu vou limpar minha alma
Para me renovar
Para cair
E para me torturar
Com uma dor de dentes insuportável
Com gengivas inflamadas
E uma terrível câimbra nos maxilares
Que me absorve totalmente
E me faz romper com tudo
Até o ponto de não
Tocar mais a vida
Até o ponto em que o desaparecimento se revela
Eu vou limpar a minha alma
E não vou parar
Antes de encontrar a paz
Antes de parar de me perder nos meus pensamentos
Antes de me libertar da dor de ser livre
Essa dor ardente
Sentir os pensamentos que se deslocam
Estar sempre a caminho
E jamais parar
Em mim
Eu não vou parar de
Limpar minha alma
Camada após camada
Até que reste apenas
A calcificação esférica
De um único pensamento
Eu sou um espírito queixoso
Que não sabe como agir
E que toma sempre o caminho incerto
Da mortificação delirante que é sua vida
Que gravita apenas nos despenhadeiros escarpados
Para examinar o estrangulamento do seu ser
Pssss, pssst, pssst, pssss, pssst,
Pssss
Eu sei
Eu perdi a minha língua
Mas isso não dá a vocês
o direito de continuar
Eu desconfio
Dessas merdas peremptórias
Que etiquetam
As criações e o pensamento
Pssss, pssst, pssst, pssss, pssst,
Pssss
Eu desconfio dos cantores de ópera
Esses funcionários gordos e
bem pagos
que escarram sons em sua alma com
a precisão de flechas castradas
Pssss, pssst, pssst, pssss, pssst,
Pssss
Eu desconfio dos compositores
Essas putas de opereta que vomitam notas
E copiam uns dos outros as
Melodias afetadas
A golpes de mouse no computador
Pssss, pssst, pssst, pssss, pssst,
Pssss
Eu desconfio dos atores
Esses travestis maquiados demais
Que só sabem falar quando
Alguém lhes escreve um texto
E parecem papagaios mecânicos
Pssss, pssst, pssst, pssss, pssst,
Pssss
Eu desconfio dos escritores
Esses escrevinhadores plagiários
Que deixam seu espírito traficado girar
Ao sabor dos ventos, como cata-ventos
Pssss, pssst, pssst, pssss, pssst,
Pssss
Lá onde outros propõem criações
Eu só quero mostrar
Meu espírito implicante
Eu não quero mais lamentar isso
Pois eu perdi a minha língua
Pssss, pssst, pssst, pssss, pssst,
Pssss
O que estou fazendo?
Talvez eu tenha apenas uma tarefa!
Eu mordo a mão de Deus
Eu não solto os dentes
Continuo a morder até ser lavado
Pelos jatos de sangue de Deus
Eu não devo me purificar
Porque ele me cega
Estou destinado a ser um vidente
Que não vê
Eu erro
Eu flutuo
Voz 2
Há muito tempo não vejo mais a terra
Mas meus pés estão cheios de bolhas
Voz 1
Eu não vou parar
Camada após camada
Eu vou limpar minha alma
até que reste apenas
a calcificação esférica
de um único pensamento
Eu sou o velho cão
selvagem
Que vê as cores do arco-íris
E que geme e chora sob a lua e
Sob o sol
Pssss, pssst, pssst, pssss, pssst,
Pssss
Um esqueleto destroçado
Envolvido por músculos finos e ardentes
Raquíticos e crispados
Como se fosse feito de vidro
E frágil
(...)"
.
.
(Jan Fabre, “Une tribu, voilà ce que je suis” (excerto), tradução de Sílvia
Fernandes.)
Uma tribo
É isso que eu sou
Esse “eu” estranho
Que nunca a civilização
controlou
Eu vou limpar minha alma
Para me renovar
Para cair
E para me torturar
Com uma dor de dentes insuportável
Com gengivas inflamadas
E uma terrível câimbra nos maxilares
Que me absorve totalmente
E me faz romper com tudo
Até o ponto de não
Tocar mais a vida
Até o ponto em que o desaparecimento se revela
Eu vou limpar a minha alma
E não vou parar
Antes de encontrar a paz
Antes de parar de me perder nos meus pensamentos
Antes de me libertar da dor de ser livre
Essa dor ardente
Sentir os pensamentos que se deslocam
Estar sempre a caminho
E jamais parar
Em mim
Eu não vou parar de
Limpar minha alma
Camada após camada
Até que reste apenas
A calcificação esférica
De um único pensamento
Eu sou um espírito queixoso
Que não sabe como agir
E que toma sempre o caminho incerto
Da mortificação delirante que é sua vida
Que gravita apenas nos despenhadeiros escarpados
Para examinar o estrangulamento do seu ser
Pssss, pssst, pssst, pssss, pssst,
Pssss
Eu sei
Eu perdi a minha língua
Mas isso não dá a vocês
o direito de continuar
Eu desconfio
Dessas merdas peremptórias
Que etiquetam
As criações e o pensamento
Pssss, pssst, pssst, pssss, pssst,
Pssss
Eu desconfio dos cantores de ópera
Esses funcionários gordos e
bem pagos
que escarram sons em sua alma com
a precisão de flechas castradas
Pssss, pssst, pssst, pssss, pssst,
Pssss
Eu desconfio dos compositores
Essas putas de opereta que vomitam notas
E copiam uns dos outros as
Melodias afetadas
A golpes de mouse no computador
Pssss, pssst, pssst, pssss, pssst,
Pssss
Eu desconfio dos atores
Esses travestis maquiados demais
Que só sabem falar quando
Alguém lhes escreve um texto
E parecem papagaios mecânicos
Pssss, pssst, pssst, pssss, pssst,
Pssss
Eu desconfio dos escritores
Esses escrevinhadores plagiários
Que deixam seu espírito traficado girar
Ao sabor dos ventos, como cata-ventos
Pssss, pssst, pssst, pssss, pssst,
Pssss
Lá onde outros propõem criações
Eu só quero mostrar
Meu espírito implicante
Eu não quero mais lamentar isso
Pois eu perdi a minha língua
Pssss, pssst, pssst, pssss, pssst,
Pssss
O que estou fazendo?
Talvez eu tenha apenas uma tarefa!
Eu mordo a mão de Deus
Eu não solto os dentes
Continuo a morder até ser lavado
Pelos jatos de sangue de Deus
Eu não devo me purificar
Porque ele me cega
Estou destinado a ser um vidente
Que não vê
Eu erro
Eu flutuo
Voz 2
Há muito tempo não vejo mais a terra
Mas meus pés estão cheios de bolhas
Voz 1
Eu não vou parar
Camada após camada
Eu vou limpar minha alma
até que reste apenas
a calcificação esférica
de um único pensamento
Eu sou o velho cão
selvagem
Que vê as cores do arco-íris
E que geme e chora sob a lua e
Sob o sol
Pssss, pssst, pssst, pssss, pssst,
Pssss
Um esqueleto destroçado
Envolvido por músculos finos e ardentes
Raquíticos e crispados
Como se fosse feito de vidro
E frágil
(...)"
.
.
(Jan Fabre, “Une tribu, voilà ce que je suis” (excerto), tradução de Sílvia
Fernandes.)
Perpetuum mobile
Estático extático errático empático apático letárgico
.
.
E desde quando alguém pode dizer que a realidade se move?
E desde quando alguém pode dizer que não?
.
.
Palavras são tão-somente amontoados aleatórios de significados desconexos presos dentro de um mesmo casulo.
Dizer que a terra se move faz tanto sentido quando dizer que ela não vai a lugar algum.
Dizer que as coisas mudam é tão verdade quanto dizer que elas se repetem eternamente.
.
.
Dito isso, pouco me importa o que nos move.
Pouco me importa o que nos mantém presos.
Estamos andando. Correndo, desesperados.
E estamos parados. Inertes. Cansados.
O que importa é que jamais estaremos satisfeitos.
Sábado, Novembro 05, 2011
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