ou então: Sobre quando as pessoas crescem e se perdem.
Dentro da sua pele acontecem milhões de pequenas explosões nucleares.Todo o seu corpo é um grande conjunto de pequenas bolhas explosivas invisíveis.
Vários pedacinhos queimados e descontrolados saindo de você, te deixando meio incompleta.
Você fraca e a sua carne e nervos expostos.
Desfigurada, sem saber quem vive por trás desse monte de impulsos nervosos emaranhados.
Você se perde tanto que começa a nevar.
Uma neve escura e suja, poeirenta e monocromática.
Você não é mais poeira colorida.
Você nunca foi.
O que você achou que era cor, na verdade era só carne viva, veias expostas e o sol refletindo no seu humor vítreo.
Tem tanta cinza que começa a nevar, e todos ficam escuros e sujos, poeirentos e monocromáticos.
Ficam tão sujos de fuligem que você não sabe mais como é o rosto deles.
A sua vida é sempre ficar no caminho dos outros.
Tudo o que você consegue fazer para evitar é sempre desejar estar em outro lugar.
Ser outra pessoa.
A sua vida é sempre se perder no caminho dos outros.
Bem, pelo menos hoje todo mundo está lá.
Todos estão lá, e não são mais os exagerados dramáticos de sempre.
Todos estão lá, grandes, crescidos e sóbrios.
Todos criaram as suas próprias linguagens, suas próprias ferramentas e suas próprias armas.
Agora todos sabem atirar direito. Naturalmente, quase inconscientemente.
Todas essas pessoas tão grandes em um lugar tão pequeno.
Todas essas pessoas tão pequenas em um lugar tão pequeno.
Pessoas tão grandes, esse lugar tão grande, e você tão pequena gostando tanto de pessoas tão grandes.
É quase uma pervesão.
Todo mundo tão grande e parecendo tão pequeno, e de repente tudo parece fazer parte da mesma coisa de antes.
Você parece fazer parte da mesma coisa de antes.
Tudo que nem antes.
Principalmente aquela vontade de morrer depois, pra você não precisar ver as coisas acabarem.
Sobretudo aquela vontade (de mentirinha) de morrer depois.
Tudo tão perfeito e do tamanho certo que você quase não lembra que é rápido.
Você quase não lembra de nada.
Não lembra que acaba logo e dói depois.
Que você não sabe se pode arcar com o peso da ausência que vem depois.
Que as pessoas se perdem no caminho.
Você só lembra de como era tão legal, todo mundo tão pequeno e arisco, que pareciam gatos novos perdidos.
Pessoas novas perdidas.
Você só lembra disso e de como tudo o que você quer é isso de novo.
Tudo tão perfeito que talvez você não mereça mais.
(ou talvez você não deseje mais)


