segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Rollercoaster

ou então: Sobre quando as pessoas crescem e se perdem.
Dentro da sua pele acontecem milhões de pequenas explosões nucleares.
Todo o seu corpo é um grande conjunto de pequenas bolhas explosivas invisíveis.
Vários pedacinhos queimados e descontrolados saindo de você, te deixando meio incompleta.
Você fraca e a sua carne e nervos expostos.
Desfigurada, sem saber quem vive por trás desse monte de impulsos nervosos emaranhados.
Você se perde tanto que começa a nevar.
Uma neve escura e suja, poeirenta e monocromática.
Você não é mais poeira colorida.
Você nunca foi.
O que você achou que era cor, na verdade era só carne viva, veias expostas e o sol refletindo no seu humor vítreo.
Tem tanta cinza que começa a nevar, e todos ficam escuros e sujos, poeirentos e monocromáticos.
Ficam tão sujos de fuligem que você não sabe mais como é o rosto deles.
A sua vida é sempre ficar no caminho dos outros.
Tudo o que você consegue fazer para evitar é sempre desejar estar em outro lugar.
Ser outra pessoa.
A sua vida é sempre se perder no caminho dos outros.
Bem, pelo menos hoje todo mundo está lá.
Todos estão lá, e não são mais os exagerados dramáticos de sempre.
Todos estão lá, grandes, crescidos e sóbrios.
Todos criaram as suas próprias linguagens, suas próprias ferramentas e suas próprias armas.
Agora todos sabem atirar direito. Naturalmente, quase inconscientemente.
Todas essas pessoas tão grandes em um lugar tão pequeno.
Todas essas pessoas tão pequenas em um lugar tão pequeno.
Pessoas tão grandes, esse lugar tão grande, e você tão pequena gostando tanto de pessoas tão grandes.
É quase uma pervesão.
Todo mundo tão grande e parecendo tão pequeno, e de repente tudo parece fazer parte da mesma coisa de antes.
Você parece fazer parte da mesma coisa de antes.
Tudo que nem antes.
Principalmente aquela vontade de morrer depois, pra você não precisar ver as coisas acabarem.
Sobretudo aquela vontade (de mentirinha) de morrer depois.
Tudo tão perfeito e do tamanho certo que você quase não lembra que é rápido.
Você quase não lembra de nada.
Não lembra que acaba logo e dói depois.
Que você não sabe se pode arcar com o peso da ausência que vem depois.
Que as pessoas se perdem no caminho.
Você só lembra de como era tão legal, todo mundo tão pequeno e arisco, que pareciam gatos novos perdidos.
Pessoas novas perdidas.
Você só lembra disso e de como tudo o que você quer é isso de novo.
Tudo tão perfeito que talvez você não mereça mais.
(ou talvez você não deseje mais)

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Pra lembrar

Você tem lista enorme de coisas esquecidas.
Procure se lembrar que você não superou a insônia ainda.
A prova disso é o fato de você levantar todas as manhãs e levar a sua vida como se algo estivesse acontecendo.
Procure se lembrar que você não superou a doença.
Que você não superou o medo de ficar sozinha.
Que você não superou a morte. Nem a sua nem a dos outros.
Você não superou nada.
Na verdade você ainda é aquela coisinha pequena e assustada no canto do universo, esperando que a galáxia abra os braços e te pegue no colo.
Procure se lembrar de todas as coisas que existiam antes de você e continuarão existindo depois.
Olhe para o mundo e tente perceber a sua própria ausência.
Tente fazer falta pra você mesmo.
Veja as engrenagens funcionando sem você.
Se veja indo embora e o seu mundinho continuar intacto.
Nem um mísero vidro trincado.
Se depois de observar tudo isso você conseguir olhar no espelho por 10 segundos, você poderá ter alguma perspectiva.
Mas é óbvio que você não vai conseguir.
Porque de todas coisas que você não superou e tentou esquecer, de cada uma das coisas da lista infinita de coisas que você tenta inutilmente ignorar, a ausência ocupa o primeiro lugar.
O interessante é que ela também ocupa o primeiro lugar da lista das coisas que você não consegue viver sem.
Você e a sua ausência, um caso desprezível de ódio e dependência.
Portanto faça o seguinte:
Pegue uma pá.
Comece a cavar.
Faça uma cova bem grande dentro do seu coração.
Jogue todas essas coisas lá e enterre.
E não se esqueça de fazer uma lápide bem bonita.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Os pedaços e as coisas inteiras

"I've watched you forever, Caden, but you've never really looked at anyone other than yourself. So watch me. Watch my heart break. Watch me jump. Watch me learn that after death there's nothing. There's no more watching. There's no more following. No love. Say goodbye to Hazel for me. And say it to yourself, too. None of us has much time."

"O que esteve antes com você, um excitante e misterioso futuro, está agora para trás: vivido, entendido, decepcionante.
Você percebeu que não era especial.
Você tem lutado em sua existência e agora está deslizando silenciosamente para fora dela.
Esta é a experiência de cada um.
Os detalhes dificilmente importam.
(...)
Como as pessoas que adoram você e param de lhe adorar.
Como se morressem.
Como se seguissem em frente.
Como se você as tirasse, como você tirou sua beleza, sua juventude.
Como se o mundo esquecesse você.
Como se você identificasse sua transitoriedade.
Como se você começasse a perder suas características, uma por uma.
Como se aprendesse que não há ninguém olhando você e nunca houve.
Você pensa apenas em dirigir, não vindo de lugar nenhum, não chegando em lugar nenhum.
Apenas dirigir.
Contando o tempo."

Synecdoche, New York.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

"Calma, no verão que vem nós vamos à praia"*

É tudo uma questão de ódio e perda de tempo.
É sobre você continuar beijando fantasmas.
Todas as coisas aparentemente importantes podem ser resumidas a uma só questão:
O que você ganha pelo esforço que você faz pra existir?
O que você ganha por qualquer coisa?
Nada do que você acha bom é realmente bom.
Só é melhor que você.
Algo não muito difícil.
É só você analisar as cartas da sua mão se perguntar o quanto você está disposta a perder ou ganhar.
Você tem tão pouco tempo pra perder e tantas lembranças pra guardar...
Amor é uma coisa de mafiosos.
Você pode até ganhar todas as fichas da mesa, mas vai acabar perdendo tudo o que você tem no balcão tentando esquecer de si mesmo.
Existir é a coisa mais estúpida a se fazer nas tardes tediosas de chuva. Nas de sol também.
É tudo sobre a pergunta certa para a resposta certa.
A pergunta é "Esse joguinho estúpido vale tanto quanto te fizeram acreditar que valia"?
A resposta certa é "Escopeta de cano serrado e munição infinita".
É muito simples.
Algumas pessoas se cansaram de perder tempo.
Algumas pessoas não aguentam mais viver por lembranças.
Algumas pessoas não aguentam mais viver por qualquer coisa que não elas mesmas, pois não há nada nem ninguém disposto a dividir com elas o peso existência.
Ou talvez simplesmente não aguentem mais viver.
Para algumas pessoas a vida não tem nenhuma razão ou causa. Nenhum valor, prático ou simbolico.
Para todas as outras, existe mastercard.
Aceito desde as outras pessoas até você mesmo.

*= O título é do Gabriel Uti Machado.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

"Planet earth is blue and there is nothing I can do"

Hoje eu queimei umas fotos velhas.
Eu nunca tinha visto papel fotográfico queimado.
Se parece muito com corpos humanos sendo cremados.
A superfície parece pele humana podre. Com bolhas e tudo mais.
E tem um cheiro muito característico que lembra corpos carbonizados.
E tem aqueles espasmos rítmicos, aqueles estalos cadenciados, que fazem você pensar que estão queimando alguém vivo.
Parece que quando você coloca uma foto sua num álbum, é como se você arrancasse um nervo seu e deixasse exposto na parede.
Fotografias são como pessoas, de certa forma.
Elas envelhecem.
Perdem a cor.
Perdem o sentido.
Você pensa que se você registrar cada pedaço da sua vida de merda que te fez gostar de existir, você vai lembrar de tudo quando morrer.
Mas não vai.
Logo fica só a ausência.
Depois de um tempo as lembranças só te fazem sentir dor e vergonha.
E você pensa que, ao apagar o registro, você apaga o fato.
Mas as pessoas não são como fotografias.
Você não pode simplesmente queimá-las quando elas começam a doer e incomodar.
Você não pode rasgar as merdas da sua vida e jogá-las na privada.
Elas ficam com você.
Pra sempre.
E você nunca vai poder fazer nada a respeito.
Por isso você queima as fotografias.
Você pode queimar, arrancar, estripar, queimar e estraçalhar uma foto, mas nunca vai poder fazer isso com alguém.
Porque fotografias são como pessoas, mas as pessoas não são como fotografias.
As fotografias morrem sem deixar vestígios.
Gente não.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Let love in

Imagine ratos andando pelas suas veias e saindo pela sua garganta.
Se imagine perdendo o controle.
Se imagine com frio, com fome e sozinho no meio de um nada gelado e escuro.
Imagine a pior besta possível.
Enorme, faminta e com dentes de três quilômetros roçando na sua cara.
Imagine a língua ácida e fedorenta dela passando por dentro dos seus globos oculares.
Imagine um bicho grande, horrível e com os olhos fixos em você.
Imagine o nariz dele absorvendo o seu cheiro.
Perigosamente perto.
Perigosamente com fome.
Tentando absorver você.
Imagine infinitos esporos bacterianos, presos por eras inteiras em você, todos saindo ao mesmo tempo.
Imagine uma arma que dispara ossos apontada para a sua cabeça.
Se imagine violado.
Como putas dançando sobre o seu corpo podre.
Ou cachorros comendo o seu intestino numa esquina imunda.
Um grande campo de concentração feito só para a sua cabeça.
Tudo o que você poderia querer do mundo, criança.
Imagine tudo aquilo que poderia te fazer vomitar pedaços de si mesmo.
E se imagine desejando desesperadamente tudo isso.

É isso, e nada além disso, que significa a porra de gostar das pessoas.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Different colors made of tears

Você sabe porque você continua vindo aqui?
Você realmente sabe?
Você não deve ser normal.
Visitando casas abandonadas cheias de fantasmas desse jeito.
Aqui é o lugar onde todos os monstros vem pra morrer.
O nosso pequeno cemitério de elefantes.
Aqui é o lugar onde ninguém se importa com o seu lado perverso.
O lugar onde ninguém se importa com você.
Onde ninguém se importa.
Você junta todos os seus fracassos, as suas porcarias, tudo aquilo que faz você ser tão pequeno e medíocre, e coloca suavemente no meu colo.
Eu sou a mãe dos entulhos.
Eu amo tudo aquilo que foi abandonado.
Eu guardo todos os corpos mal-sepultados dos seus primeiros bichos de estimação.
Eu guardo os primeiros passos cambaleantes.
Eu guardo o medo do escuro.
Eu guardo cada merdinha, cada pedacinho de lixo, cada diabinho que você foi acumulando na sua cabecinha.
E faço tudo ficar maior.
E faço tudo voltar.
Eu trago as feridas velhas e lhes dou cores novas.
Eu pego o passado, cuido dele e o faço crescer até ele ser enorme e absolutamente dolorido.
E você continua batendo nas mesmas portas trancadas.
Você pensa que é grande, mas você continua sendo uma menininha desgrenhada e quieta no canto da sala.
Esses são meus fantasmas, essa é a minha casa e essas são as minhas feridas.
Esse, Marília, é o lugar que você pode chamar de lar.

sábado, 1 de agosto de 2009

"It´s a strange world..."¹

Esse é um mundo estranho.
Pode até acontecer de pessoas adaptarem-se a ele, mas isso não prova nada a não ser que as pessoas são estranhas também.
Mais que estranho.
Esse é um mundo perigoso.
Ele se faz pequeno e apetitoso e vem aconchegar-se nas suas mãos, suplicando pra que você o devore.
Tentando se mostrar saboroso.
Você sabe que não é de verdade.
Mas você não resiste.
E quando você olha, já não é mais um mundo, é a maior e mais colorida amora que você já viu na vida.
E você come.
E aí você se toca do engano.
Nunca foi uma amora bonita e apetitosa.
É uma coisa estranha, perigosa e com um sabor podre.
E está dentro de você.
Está parando na sua garganta.
Te engasgando.
Tentando tirar o seu ar dos seus pulmões.
Tentando tirar você de você mesmo.
Tentando te matar.

Certamente, esse é um mundo estranho.
Mas as pessoas são bem mais estranhas.

Nunca se esqueça que embora o mundo exista pra te foder, você o engole por livre e espontânea vontade.


1=Planetary, de Warren Ellis e John Cassaday